A força do depois


O *depois* é estranho. Cresce em todos os “amanhã ligo”, “depois passo aí”, “quando der tempo...”. Deixar para depois parece inofensivo, o dia continua, as pessoas continuam ali, os sonhos seguem vivos na nossa mente, mas o tempo... ah esse...  não pára... As oportunidades passam discretas, tímidas, à espera de um gesto de coragem. "Agora não, fica para depois" e adiamos.  Quando finalmente estamos prontos, descobrimos que o momento já passou, que a porta que estava aberta fechou.
Encontros com os amigos e família, "vamos marcar qualquer coisa?", " não tenho tempo", "agora não posso", "temos de deixar pra depois". No final fica a conversa adiada, o pedido de desculpa que ficou para amanhã, o “eu gosto de ti" receoso ou que parecia óbvio demais para ser dito, a distância que cresce, as pessoas que vamos perdendo aos poucos... e continuamos a acreditar que haverá tempo. E assim vamos adiando encontros, palavras, pedidos de desculpa, abraços simples. Não por maldade, mas por distração. Por cansaço. Por achar que sempre haverá outra hipótese. Acreditamos que o tempo é elástico, que as pessoas ficam, que a vida espera.  A vida vai acontecendo, o sonho que podia ter sido vivido torna-se apenas uma ideia do que poderia ter sido.
Deixar "para depois" é um roubo silencioso. No momento não magoa, não faz barulho, mas mais tarde custa muito caro. 
Até que um dia ... não há. A pessoa morre e o depois muda de sentido. Já não é promessa, é silêncio. O que ficou por dizer pesa mais do que o que foi dito. As frases ensaiadas não encontram mais ouvidos e o carinho guardado não encontra mais as mãos que acarinham. O depois vira um lugar onde se revisita o passado e remoemos ... como teria sido se tivesse ido,  se tivesse falado antes, se tivesse amado?
Talvez viver seja, acima de tudo, aprender a não esperar demais,Quando dizer? AGORA, Quando tentar? AGORA, Quando sentir? AGORA. Porquê? Porque o depois nem sempre chega e, quando chega, pode ser tarde demais. Não para viver com medo, mas com presença. Dizer enquanto há tempo. Ir enquanto é possível. Porque quando o depois, e se  chega tarde demais, ele ensina — de forma cruel — que algumas coisas não deveriam esperar.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Feliz Infelicidade